Morro de São Paulo: Mistérios, Lendas e Curiosidades
|
Getting your Trinity Audio player ready... |
Morro de São Paulo, uma ilha paradisíaca no litoral sul da Bahia, não só encanta seus visitantes com suas deslumbrantes paisagens naturais, mas também guarda uma rica história repleta de segredos e curiosidades. Neste artigo, convidamos você a desvendar alguns dos enigmas que envolvem este destino turístico único, desde intrigas sobre tumbas e avistamentos históricos até curiosidades da Fortaleza e da Vila, revelando segredos que irão fascinar até mesmo os viajantes mais experientes. Além disso, abordaremos alguns equívocos frequentes e concepções errôneas relacionados ao Morro de São Paulo, destacando que nem todas as narrativas difundidas correspondem à realidade. Prepare-se para descobrir a verdade por trás dessas histórias intrigantes!
Martim Afonso Nomeou a Ilha de Tinharé?
Em 1531, a expedição de Martim Afonso de Sousa, que depois seria o primeiro donatário da Capitania de São Vicente, avistou a região de Tinharé. Ao contrário do que se costuma dizer, o diário de seu irmão, Pero Lopes de Sousa, registra apenas a foz do rio de Tinharé e não dá nome à ilha nem ao Morro de São Paulo.
Quinta-feira, vinte e quatro de março de 1531, não conseguimos enfrentar o mar, que estava muito agitado; e voltamos com bastante dificuldade; navegamos o dia todo com as velas recolhidas, em direção ao noroeste; e ao pôr do sol avistamos terra, e conhecemos a boca do rio de Tinharé ao sul. Quando anoiteceu, uma tempestade de leste nos atingiu tão repentinamente que, com o vento sudeste soprando forte, a tempestade prevaleceu; se estivéssemos com as velas abertas, teríamos virado. – Diário da navegação de Pero Lopes de Sousa (tradução livre da edição de 1847)
O nome Morro de São Paulo veio posteriormente e não foi atribuído por Martim Afonso. Apesar de avistar a região, ele e sua tripulação, incluindo seu irmão Pero Lopes de Sousa, que escreveu o diário da expedição, não desembarcaram na ilha, ancorando próximo devido às condições adversas do mar. Além disso, uma tempestade os forçou a interromper a navegação ativa e permanecer ancorados em uma posição segura até que as condições meteorológicas permitissem a navegação novamente. No dia seguinte, continuaram sua viagem.
Por estarmos muito perto da terra, ancoramos em uma profundidade de vinte e uma braças de areia limpa: o mar estava tão agitado que constantemente atingia os castelos (as partes elevadas do navio). No quarto da madrugada, uma tempestade sobre a terra ao oeste nos manteve até pela manhã, quando conseguimos voltar à costa. Sexta-feira de manhã, partimos; o mar estava tão agitado que navegávamos com todas as velas abertas, e não conseguíamos avançar. – Diário da navegação de Pero Lopes de Sousa (tradução livre da edição de 1847)
Ao chegar à Baía de Todos os Santos, dias depois, a expedição encontrou um navio ancorado, uma caravela e um português que vivia ali havia 22 anos. Isso mostra que a região já era conhecida e frequentada por outros navegantes e habitantes antes da chegada de Martim Afonso.
A Arcada Dentária Oculta na Igreja

Uma descoberta curiosa veio à luz na Igreja Nossa Senhora da Luz: uma arcada dentária foi encontrada no meio da construção. Segundo informações da própria igreja, o último restaurador, curioso, batia nas paredes em busca de objetos do passado e acabou encontrando o achado. Ele pode ser visto por uma pequena porta de vidro, ao lado direito do altar, na primeira fileira de assentos. Entende-se que a arcada tenha pertencido a escravos que trabalharam na obra, mas não há estudo ou registro que confirme.
O Jazigo Misterioso

No cemitério do Morro de São Paulo, um jazigo intriga os visitantes com uma peculiaridade desconcertante: o nome de Isabel Rosas foi gravado de cabeça para baixo. Segundo as lendas locais, essa inversão inexplicável pode ser atribuída a um suposto caso de infidelidade em seu relacionamento. Embora os detalhes permaneçam envoltos em mistério, a presença dessa inscrição invertida continua a desafiar explicações.
Marquesa de Santos em Morro de São Paulo

Museu Imperial de Petrópolis
Contrariando as especulações populares, a presença da Marquesa de Santos em Morro de São Paulo é mais uma questão envolta em boatos do que um fato histórico comprovado. Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, foi amante de Dom Pedro I, pai de Dom Pedro II. No entanto, após o término de seu caso com Dom Pedro I, ela conheceu e casou o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar.
Quando Dom Pedro II visitou Morro de São Paulo em 5 de outubro de 1859, a Marquesa já era viúva e Dom Pedro I, pai do imperador, havia falecido 25 anos antes, o que torna improvável uma interação direta entre ela e Dom Pedro II. Nas fontes que consultamos, o contato registrado entre os dois foi feito por meio de um procurador. Em 1842, depois que o companheiro da Marquesa, Rafael Tobias de Aguiar, foi preso e levado ao Rio de Janeiro por causa da Revolução Liberal, ela pediu ao imperador, por esse meio, para cuidar dele doente, e o pedido foi aceito.

Durante suas viagens, Teresa Cristina, esposa de Dom Pedro II, o acompanhava. Uma evidência disso é a correspondência entre a Condessa do Barral e a Imperatriz, datada em torno do mesmo período da visita da família real ao Morro de São Paulo. Essa carta confirma que a Imperatriz acompanhava o Imperador nessa viagem.
Carta da Condessa de Barral à Imperatriz, que acompanhava o Imperador em sua viagem.
6 de outubro de 1859.
Senhora,
Espero que Vossa Majestade não se ofenda com minha audácia em escrever-lhe e que me permita tranquilizá-la sobre o estado de saúde de Suas Altezas:
Suas Altezas estão bem, não têm apresentado tonturas, calafrios ou teimosias, e tem sido suficiente lembrá-las das recomendações de Mamãe para que mantenham a melhor harmonia entre elas. Os estudos estão progredindo regularmente, e em breve a Princesa D. Leopoldina deve começar seus banhos frios, para os quais já fez hoje a primeira fricção de água fria pelo corpo. As costas estão em boas condições. A Princesa D. Isabel queixou-se uma noite da garganta, mas foi algo passageiro, e ao melhorar desse desconforto, imediatamente teve uma piora nos lábios. As últimas palavras de Sua Majestade o Imperador ainda ressoam em meus ouvidos e só aumentam, se possível, minha dedicação às Princesas.
Fiquem Vossas Majestades certas de que farei tudo que estiver ao meu alcance para cumprir bem minha alta Missão.
Já disse a Sua Majestade o Imperador que lhe escrevo da cama, onde fui acometida por uma forte dor de garganta. Estou me recuperando, e coloco aos pés de Vossa Majestade as respeitosas homenagens de Meu Marido, as minhas e as do pequeno Dominique, que junto conosco beija a mão augusta de Vossa Majestade.
De Vossa Majestade
a humilde criada.
Condessa de Barral
O boato por trás da lenda:
Não há registro de que a Marquesa de Santos tenha estado na ilha, o que nos leva a questionar: de onde surgiu essa lenda? Por muito tempo, especulou-se que a lenda teria se originado de uma matéria na revista Manchete, nos anos 80. No entanto, ao investigarmos a revista, apesar de encontrarmos a matéria em questão, não encontramos qualquer menção a essa suposta lenda.

Dom Pedro II e a Fonte Grande
Nos registros de seu diário, Dom Pedro II descreve minuciosamente sua experiência com a Fonte Grande do Morro de São Paulo. Ele faz menção à inscrição na fonte, que atribui sua construção ao Conde das Galveias, e oferece detalhes sobre a qualidade da água que foi oferecida. Apesar da água pouco clara, ele a considerou aceitável. Anotou também que a localidade passava por saudável, ainda que os moradores não parecessem sê-lo pela fisionomia. Contrariando uma crença popular equivocada, vale ressaltar que não há evidências de que Dom Pedro II tenha tomado banho na Fonte Grande durante sua curta visita.
Há uma fonte pública de 3 bicas com a seguinte inscrição: “O Ilmo. e Exmo. Sr. André de Mello e Castro, Conde das Galveias, vice-rei – cap-gal. de mar-e-terra do gno do Brasil, mandou fazer esta fonte em 1743”. A água que me deram para beber era pouco clara mas dizem que é boa, e não me pareceu má no gosto; é verdade que tinha bastante sede e a localidade passa por sadia ainda que a gente não o pareça pela fisionomia. – Dom Pedro II
Ainda relacionado à visita de Dom Pedro II ao Morro de São Paulo, pelos escritos no diário de viagem do imperador, nada indica que ele tenha dormido em terra firme, muito menos em alguma casa ou sobrado da vila. É bem provável que ele tenha passado a noite em sua suíte no navio, como era seu costume. No dia 6 de outubro de 1859, a comitiva imperial navegou até Salvador.
A Confusão entre as Praias

A confusão entre a Primeira Praia e a Segunda Praia ocorre muitas vezes devido ao fato de que, ao chegarem à Primeira Praia, os viajantes e turistas têm suas vistas bloqueadas pelas casas à beira-mar, levando-os a acreditar que a Segunda Praia, a primeira praia que avistam, é a Primeira Praia. Isso mostra como a primeira impressão pode nos enganar quando não temos todas as informações, destacando o valor de explorar ainda mais cada parte dessa ilha incrível.
Município de Cairu e o Arquipélago de Tinharé
É importante esclarecer que o Arquipélago de Tinharé faz parte do município de Cairu, e não o contrário, como muitas vezes é erroneamente afirmado, seja por reprodução frequente ou por motivações políticas. Essa distinção é confirmada por documentos oficiais e destaca a necessidade de consultar fontes confiáveis ao explorar a história e geografia da região. O Arquipélago de Tinharé, pertencente ao município de Cairu, é composto por 26 ilhas, sendo apenas três delas habitadas: Cairu, Boipeba e Tinharé.
O Único Município Arquipélago no Brasil
Embora Cairu seja frequentemente citado como o único município arquipélago do Brasil, essa afirmação não reflete completamente a diversidade geográfica do país. Existem outros exemplos de municípios que também são compostos por arquipélagos ou têm parte significativa de seu território formado por ilhas.
Um exemplo notável é Ilhabela, localizado no estado de São Paulo, que abrange várias ilhas e é conhecido por sua beleza natural e atrativos turísticos. Além disso, municípios como Paraty, no estado do Rio de Janeiro, e Angra dos Reis, também no Rio de Janeiro, possuem uma configuração semelhante, com diversas ilhas em seu território.
Também é comum ouvir que Cairu seria o único município-arquipélago 100% insular do Brasil, mas isso igualmente não se confirma. A ilha de Cairu, que dá nome ao município, é ligada ao continente. Já Ilhabela, citada acima, é formada inteiramente por ilhas, entre elas a Ilha de São Sebastião. Cairu é, de fato, um arquipélago de 26 ilhas, mas não é o único do país.
Mais Curiosidades da Fortaleza e da Vila
O Morro como garantia de paz. Pela posição estratégica, o Morro entrou nas negociações com os holandeses. Segundo Bernardo Vieira Ravasco, na época das negociações de paz a posse do Morro esteve entre os lugares pedidos como garantia. Para Mário Mendonça de Oliveira, os holandeses sabiam que, controlando o Morro, controlariam Salvador, mas os portugueses não aceitaram a proposta. O historiador João da Silva Campos registra ainda que, nas negociações de 1648, uma das propostas dos invasores era ocupar o Morro por vinte anos, até Portugal cumprir as obrigações do acordo.
Uma Vila nascida das casas dos soldados. Segundo Mário Mendonça de Oliveira, a guarnição do Morro era formada por soldados recrutados na região e nunca teve quartel: eles moravam em casas próprias, e o traçado dessas casas coincide com o da via principal da povoação atual, a Rua Caminho da Praia. A planta do Morro de São Paulo feita por volta de 1725 pelo engenheiro Miguel Pereira da Costa já registra as “casas em que moram os soldados do presídio”. Na época, presídio era a guarnição militar, e não uma prisão. Para Oliveira, a urbanização do Morro de São Paulo se originou dessas casas.
Uma pedra de quase 59 toneladas e um temporal. O terreno do Morro sempre foi inimigo das fortificações. Em 1744, o engenheiro Nicolau Abreu de Carvalho relatou que uma pedra de cerca de “mil quintais de peso” (cerca de 58,7 toneladas) se desprendeu da encosta e arruinou as casas e o corpo da guarda do Forte Velho. Em junho de 1774, segundo Vilhena, um temporal abriu uma grande brecha na muralha da bateria da Conceição.
Revoltas da guarnição. A vida dos soldados do Morro nem sempre foi tranquila. Segundo pesquisa da UFF (Rodrigues, 2015), em 1715 os artilheiros da Fortaleza se revoltaram “por motivo desconhecido”, e o mestre de campo João de Araújo e Azevedo interveio; os líderes foram enviados presos. João da Silva Campos registra uma revolta da guarnição em 1718, episódio que ele chama de “em absoluto ignorado até hoje”, encontrado num livro de provisões do Arquivo Público do Estado. As datas divergem, e não sabemos se foi o mesmo episódio ou dois.
Tinharé, um nome pouco conhecido na ilha. Em 5 de outubro de 1859, Dom Pedro II anotou em seu diário que, no Morro, não parecia haver conhecimento de que a ilha era chamada de Tinharé, nome que ele via nos mapas.
Considerações Finais
Morro de São Paulo continua a encantar seus visitantes com mistérios e segredos fascinantes. À medida que descobrimos as histórias por trás de seus pontos turísticos e eventos históricos, somos lembrados da riqueza cultural e natural que esta ilha única tem a oferecer. Que essas revelações inspirem uma viagem ainda mais profunda neste destino encantador, onde cada descoberta nos presenteia com uma nova camada de sua história e uma herança fascinante, esperando para ser explorada.
Fontes: Pero Lopes de Sousa, Diário da Navegação da Armada que foi à Terra do Brasil (expedição de Martim Afonso de Sousa, 1530–1532), ed. Varnhagen, Rio de Janeiro, 1847, registro de 24 de março de 1531; diário de Dom Pedro II, entrada de 5/10/1859 (Museu Imperial); Cartas a Suas Majestades (Arquivo Nacional, 1977, p. 27); revista Manchete, edição 1819, 1987 (Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional); Museu da Cidade de São Paulo, Solar da Marquesa de Santos, “Marquesa de Santos: bem mais que amante”; João da Silva Campos, Crônica da Capitania de São Jorge dos Ilhéus (1936); Mário Mendonça de Oliveira, “A defesa da Baía de Todos os Santos”, in Baía de Todos os Santos: aspectos humanos (Salvador: EDUFBA, 2011), pp. 194–199, que cita Bernardo Vieira Ravasco, Luís dos Santos Vilhena e o relatório de Nicolau Abreu de Carvalho (1744); Gefferson Ramos Rodrigues, Escravos, índios e soldados (tese, UFF, 2015), p. 206, via Impressões Rebeldes (UFF); Arquivo Histórico Ultramarino, Planta do Morro de S. Paulo, Miguel Pereira da Costa, c. 1725 (AHU_CARTm_005, D. 0963), e ofício de 8/1/1725 (AHU_ACL_CU_005, Cx. 20, D. 1822); informações fornecidas pela Igreja de Nossa Senhora da Luz (contato direto); inscrição da Fonte Grande.
