Milagres no Morro de São Paulo: 4 Relatos Antigos que Poucos Conhecem
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Os milagres no Morro de São Paulo incluem uma história de 1628: duas naus holandesas chegaram à barra para saquear a capela de Nossa Senhora da Luz, viram o monte cheio de soldados e recuaram.
Quem conta isso é um frade franciscano, Antônio de Santa Maria Jaboatão, na crônica Novo Orbe Seráfico Brasílico. No mesmo trecho, ele relata quatro dos milagres no Morro de São Paulo, atribuídos pelos moradores à Senhora da Luz. Jaboatão chama esses fatos de “favores” e “prodígios”, palavras antigas para o que hoje chamamos de milagres.
Quais São os Milagres no Morro de São Paulo?
Segundo a crônica, são quatro:
- A fonte de água que brotou no alto do morro.
- O âmbar-gris achado entre as pedras, que pagou os ornamentos da capela.
- O esquadrão de “mais de dois mil homens” que fez os holandeses recuarem em 1628.
- A imagem que sumiu de uma caixa e reapareceu no altar.
A contagem em quatro milagres no Morro de São Paulo é nossa, não de Jaboatão. Ele só usa a palavra “milagrosa” para a fonte. Abaixo, cada relato como está na fonte.
Quem Construiu a Capela de Nossa Senhora da Luz?
Segundo a crônica, o Capitão Lucas da Fonseca Saraiva era um dos principais povoadores da região de Cairu e da ilha de Tinharé. Para morar, escolheu a ponta mais alta da ilha, que os portugueses passaram a chamar de “o Morro”. E, no alto dela, decidiu levantar uma ermida dedicada a Maria, com o título de Nossa Senhora da Luz.

Jaboatão diz que a escolha do lugar foi quase inspirada: o morro serviria de “farol” para o povo nas horas de aflição e de fortaleza contra os inimigos. Para tocar a obra, o capitão entregou o trabalho a um devoto chamado Simão Barreto, que passou a viver ali como ermitão.
A Água que Brotou no Alto do Morro
O primeiro dos milagres no Morro de São Paulo nasceu de um problema simples: a falta de água na obra. Simão Barreto precisava descer o monte por um caminho áspero e distante para buscá-la, e a construção andava devagar.

Depois de rezar, ele subiu à coroa do morro e viu, num lugar mais úmido, umas espadanas, planta que os indígenas chamavam de caraúatas. Afastou as folhas com as próprias mãos e cavou um pouco de terra. De repente, brotou “um cristalino olho de água”, uma fonte que não secava.
Jaboatão chama a fonte de milagrosa pelo princípio, pela ajuda à obra, pelo proveito dos moradores e pela saúde de enfermos que, segundo ele, ela trouxe. E acrescenta que, quando a fortaleza foi erguida no Morro, essa fonte ficou dentro de suas muralhas.
O Âmbar que Pagou a Capela
Com a obra de pedreiros e carpinteiros pronta, faltava dinheiro para os ornamentos e para colocar a imagem da Santa no altar. Ela ainda estava guardada no abrigo de palha do ermitão.
Jaboatão conta que, um dia, Simão Barreto rezou diante da imagem: “Senhora, o dinheiro é consumido, o vosso devoto e benfeitor não pode haver outro tão cedo.” E pediu: se a Senhora queria ir logo para a sua casa, que desse com que prepará-la, porque não parecia bem a capela estar pronta e ela ainda naquele palheiro indigno.
Levantou-se e, sem entender o que o movia, teve a ideia de ir à praia procurar âmbar, pois já tinha ouvido dizer que haviam encontrado ali uma pasta dessas.
Ele caminhou o dia todo e voltou ao pé do monte quase de noite. Em vez de subir pela vereda de costume, foi contornando pela ponta, o trecho mais pedregoso, junto ao mar. Ali, entre as pedras, justamente onde menos esperava, achou cerca de quatro libras de âmbar-gris, algo em torno de 1,8 quilo, do mais puro. O ermitão se jogou no chão, agradeceu e fez voto de gastar o resto da vida a serviço da Senhora.
Com o dinheiro do âmbar, a capela recebeu o necessário para o culto e para os ornamentos, e foi criada a Confraria de Nossa Senhora da Luz.
O Que Aconteceu em 1628? O Esquadrão que Fez os Holandeses Recuarem
Em 1628, no governo de Diogo Luís de Oliveira, esquadras holandesas infestavam o mar do Brasil. Uma delas, com treze naus, comandada pelo general que Jaboatão chama de Petrit, entrou na baía de Todos os Santos até Tapagipe. Dentro do porto, apresou dezesseis navios carregados de açúcar. Mesmo assim, não parou: mandou duas naus, sob o comando do cabo Maõsinha (assim chamado, segundo Jaboatão), para a barra do Morro. A missão era saquear a capela da Senhora da Luz, de que os holandeses tinham notícia por causa das peças de ouro e prata.
O cabo não teve o mesmo sucesso. Quando tentou entrar na barra, viu o monte inteiro, de forma clara e distinta, “guarnecido de gente em forma militar”, que julgaram ser mais de dois mil homens. Ainda não havia fortaleza no Morro, só a capela.
Jaboatão não tem dúvida: o esquadrão era comandado pela própria Senhora da Luz, “imperatriz dos Anjos”, e foi ela quem fez os corsários virarem as velas. A informação, segundo ele, veio de portugueses que os holandeses tinham capturado em outros navios e depois largaram pela costa.
A Imagem que Sumiu e Voltou ao Altar
O quarto dos milagres no Morro de São Paulo vem logo depois. Do alto do morro, Simão Barreto viu as naus recuarem, mas não entendeu o motivo. Temeu que fosse só uma visita de reconhecimento, e que os holandeses voltassem à noite para saquear a capela.
Então tirou a imagem do altar e a escondeu no mato, dentro da caixa dos ornamentos, e dormiu em cima dela. Quando abriu a caixa de manhã, a imagem não estava lá. Ele a revirou por inteiro, achou que tinha sido roubado e chegou a dizer: “Ou isto é sonho, ou estou louco.”
Correu para a capela, abriu a porta e viu a imagem no seu lugar, no altar. O ermitão devolveu a caixa e os ornamentos à capela. Jaboatão conclui que a Senhora quis ficar ali, e que a barra do Morro passava a estar sob a proteção dela.
E Depois dos Milagres?
Pouco depois da tentativa holandesa, o governador Diogo Luís de Oliveira veio pessoalmente ao Morro e mandou levantar a fortaleza. Segundo Jaboatão, isso foi no ano seguinte a 1628. Moradores da ilha e da terra firme ajudaram com pessoas, escravos e mantimentos, como obra do serviço do rei e do bem do povo.
Esses quatro relatos mostram como a capela de Nossa Senhora da Luz ficou na memória do povo: foi ali que nasceu a fé que acompanha os milagres no Morro de São Paulo até hoje.
Fontes: JABOATÃO, Frei Antônio de Santa Maria. Novo Orbe Seráfico Brasílico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil. Parte I. Impresso em Lisboa em 1761; reimpresso pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense de Maximiano Gomes Ribeiro, 1858, p. 97–103 (§§ 81–85).
